terça-feira, 19 de setembro de 2017

"UM ESTRANHO NUMA TERRA ESTRANHA" de Robert A Heinlein, ou "Faça Amor, Não Faça Guerra"






Por RICARDO CAVALCANTI





Há muitos anos venho ouvindo falar do livro Um Estranho Numa Terra Estranha, de Robert A. Heinlein, que havia ajudado a pavimentar o caminho para o movimento da contracultura que permeou boa parte dos anos 1960/70 e se transformou na marca daquela época. No entanto, a possibilidade de um relançamento por aqui era bastante remota. A última edição havia sido a de 1992 pela editora Record, sendo possível encontrar somente em sebos e em estado de conservação nem sempre muito animador. Felizmente estamos vivendo uma época em que passamos a ter acesso a obras clássicas e icônicas novamente em nossas mãos. Ponto para a Aleph, que vem se mostrando comprometida em trazer obras clássicas da ficção científica e vencedoras de importantes prêmios do gênero. Um Estranho numa Terra Estranha foi vencedora do Prêmio Hugo em 1962 na categoria principal. Robert A. Heinlein compõe a seleta galeria de vencedores da premiação que contêm nomes como: Isaac Asimov, Frank Herbert; Arthur C. Clark, Willian Gibson, China Miéville e Cixin Liu, autores que já chegamos a resenhar uma obra ou outra aqui no Zona Negativa.

Robert Heinlein


Mas o que torna essa obra tão importante? Para responder a isso, precisamos contextualizar um pouco. No ano de lançamento do livro o mundo estava em transformação. A Guerra do Vietnã acontecendo, o Muro de Berlim sendo construído, o fracasso na tentativa da CIA de invasão da Baía dos Porcos, a luta por igualdade racial nos Estados Unidos, Yuri Gagarin indo ao espaço (literalmente), guerra fria e tensão mundial a todo vapor. Momentos de crise costumam gerar transformações na percepção da população de como ela vê o mundo ao seu redor e como ela está inserida nesta realidade. Nesses momentos é que a arte se mostra mais importante, tendo essencial papel na transformação do status quo, seja pelo cinema, música, literatura, ou qualquer outra manifestação artística. A arte pode (e deve) ser transformadora. Bom, vamos ao livro!



Partindo do título, que é uma referência ao Velho Testamento da Bíblia, em Êxodo, capítulo 2 versículo 22, Heinlein já começa mostrando que pretende pisar em terreno perigoso. Mesmo assim, o faz de maneira bastante sutil. Conta a história de Michael Valentine Smith, que nasce em uma nave que estava em uma expedição à Marte e que acaba perdendo contato com a Terra. Sendo o único sobrevivente, acaba sendo criado pelos habitantes do Planeta Vermelho, aprendendo os costumes e a forma de enxergar a vida, que é bastante peculiar e muito diferente da nossa. Uma outra expedição é enviada novamente à Marte, vinte e cinco anos depois, quando se descobre a existência de um sobrevivente, que seria herdeiro de uma grande fortuna. A partir daí acompanhamos sua história e sua adaptação, passando pelo seu entendimento sobre a sociedade encontrada por aqui. Esta interação muda não só Smith, mas também a própria Terra. A trama se passa num futuro pós Terceira Guerra Mundial e que as viagens especiais são mais corriqueiras e simples.



O Homem de Marte”, ou simplesmente “Mike”, depois de chegar a Terra, é recebido por agentes do governo, que tratam logo de deixá-lo internado em um hospital para ficar em “observação”, sem contato com o resto da população (sobretudo do sexo feminino). Enquanto isso, para atender aos interesses da mídia em descobrir mais sobre este curioso humano com experiências tão únicas, é apresentado ao mundo um ator que se passa por Valentine Smith.

Jill, uma enfermeira que é namorada do repórter Ben Claxton, é induzida por ele a ter um contato mais direto com Mike, principalmente após perceberem a farsa por trás do “Homem de Marte” que apareceu na TV. Jill consegue entrar escondida no quarto em que está o verdadeiro Smith e, em um gesto simples e comum (compartilhando um copo com água), acaba criando uma forte ligação entre os dois. Burlando o forte esquema de segurança que estava “protegendo” Mike, Jill consegue retirá-lo do hospital disfarçando-o como um paciente qualquer. Neste momento, vemos o Homem de Marte exibir, pela primeira vez, algumas de suas habilidades que são humanamente incomuns.



Jill acaba escondendo-o na casa de Jubal Harshaw. Jubal é um escritor que está quase aposentado, que gosta de se apresentar como um bon vivant, muito rico e apreciador das coisas boas da vida, além de possuir a mente bastante aberta (principalmente para as coisas que viria a presenciar). É um personagem bastante interessante - e um dos meus preferidos - que vai costurando o desenvolvimento da história de maneira bastante orgânica, sendo o fio condutor de boa parte da trama.



Com uma inteligência acima dos padrões humanos, aliado à inocência quase infantil do personagem, Mike vai buscando grokar a Terra e a sociedade humana (o termo “grokar”, inventado pelo autor, que possui uma grande gama de significados, foi incorporado à língua inglesa após a obra). 
 



Mike passa a transformar a todos ao seu redor. Gerando um sentimento como o de uma espécie de espírito livre, em que toda forma de amor passa a ser válida: sem limites, sem censuras, sem pudores e sem travas morais. O Homem de Marte encara o sexo como algo muito maior que uma união de corpos em busca de prazer; é uma conexão além da carne. Somos apresentados a não apenas uma ideologia de vida, mas uma nova maneira de encarar os  semelhantes e o mundo ao nosso redor; com tolerância filosófica, libertarismo humano e poligamia (que são assuntos que chocam algumas pessoas até hoje). Além disso, aproveita para questionar o comportamentos de algumas instituições religiosas que vão ao encontro de outros interesses, em detrimento da busca pela salvação da alma.






Uma obra que abriu as portas de um novo tempo e chacoalhou a sociedade conservadora da época. (Convenhamos, existe algo mais atrasado que uma mentalidade “conservadora”? Ser conservador é manter as coisas como estão, ficar estagnado e não evoluir!). Encare Um Estranho Numa Terra Estranha de coração aberto. Com a forma de uma sátira sociopolítica, em que são questionados valores preestabelecidos de nossa cultura - além de todo aspecto político e religioso, das relações humanas e como a sociedade se  comporta - mais do que uma simples leitura, o livro é um convite à reflexão. Mesmo que nada mude na forma de pensar ou agir, se ela simplesmente te fizer refletir sobre suas convicções e valores, já vai ter valido a pena. O mundo está precisando de pessoas que pensam de forma independente. Sempre questione, debata, reflita... mas esteja sempre pronto para ter contato com outras opiniões e encarar outros pontos de vista. Ás vezes é preciso distanciamento e tentar enxergar o lugar que você viveu a vida toda com os olhos de um alienígena. Só assim conseguiremos ver o que está escondido em plena vista. Não busque neste livro por respostas - nem conspirações para te manipular a aceitar tudo que está lá - o propósito da obra não é este. Ele somente abre novas linhas de raciocínio para te fazer pensar.



É claro que qualquer obra que incentive o indivíduo a questionar os valores que lhe são impostos goela abaixo e pensar com a própria cabeça (e não engolir opiniões prontas e já formadas) é normalmente transformada em algo subversivo e aliado a uma conduta criminosa. Como o livro foi ganhando uma relevância cada vez maior, passou a incomodar o pensamento conservador da época (que não é muito diferente do que vemos hoje em dia). Como parte do plano para desencorajar a leitura (transformando-a em algo proibitivo e quase ilegal), a obra foi associada ao crime cometido por Charles Manson, que em 1969 invadiu a mansão do diretor de cinema Roman Polanski e assassinou a atriz Sharon Tate, na época esposa do diretor, e grávida dele. O boato plantado, afirmava que o mesmo era fã da obra e, de alguma forma, foi o que o incentivou a cometer o crime. Uma acusação sem muito propósito, visto que Smith era inteiramente contra a violência. Posteriormente, o próprio Manson afirmou desconhecer a obra. Podemos perceber que a prática de espalhar notícias falsas não é exclusividade do nosso tempo. Notícias que estão a serviço da desinformação sempre foram uma forte ferramenta de manipulação. A única diferença de hoje é que fica mais fácil desinformar, pois as bolhas de controle, que são disfarçadas de redes sociais, são um solo fértil para a disseminação desse tipo de prática. Mas não é o momento para falar sobre isso... por enquanto!

Cuidado! Ele pode estar mentindo. Ou não.. ou talvez




Excluindo-se um diálogo entre dois personagens que apresentam um pensamento e forma de raciocínio completamente condenáveis e equivocados, é uma obra que vale a leitura. Em alguns momentos, senti falta de uma presença maior do Homem de Marte. Mas nada que tenha comprometido minha experiência. A versão original tinha cerca de 800 páginas e aproximadamente 220.000 palavras, mas Heinlein acabou sendo forçado a cortar aproximadamente 60.000 palavras, o que acabou não agradando muito ao autor. Após o falecimento de Heinlein, a viúva do autor conseguiu publicar o texto integral sem cortes. Será que ainda teremos esta obra completa nas mãos? Estou aguardando ansioso por esse dia.
 




quinta-feira, 14 de setembro de 2017

SKREEMER, de Peter Milligan + Brett Ewins + Steve Dillon, ou "Arqueologia Vertigo"





Por EDUARDO CRUZ





É sombria. Muito sombria.
A noite ou a HQ?
Ambas, e trabalhar na HQ tomou muitas
noites sombrias.
A semente de uma idéia - Milligan e eu sentados
no cinema assistindo a Era uma vez na América.
A semente de uma idéia.
Gângsteres.
Uma HQ de gângsteres.
Uma HQ futurista de gângsteres.
Torne retrô sci-fi e é isso.
A era está ficando velha.
O mundo é uma lugar perigoso.
No quadrinho ou no planeta?
Em ambos.

Brett Ewins, em texto de introdução de Skreemer 


Já ouviram falar em Finnegans Wake?

Um livro não linear, sem começo e sem fim, onde nada tem necessariamente uma sequência lógica, e eventos não estão obrigatoriamente encadeados entre si. Onde o aleatório predomina. Mais ou menos como a própria vida. Finnegans Wake é uma narrativa aparentemente caótica, um livro que levou 17 anos para ser terminado, onde o autor James Joyce mistura neologismos e funde palavras de idiomas diferentes, uma verdadeira torrente de idéias e palavras criadas por Joyce exclusivamente para que ele expressasse suas idiossincrasias em um fluxo narrativo, e que é o pesadelo de qualquer tradutor! Curiosamente, o Brasil ousou e nós somos um dos poucos países a ter uma tradução de Finnegans Wake. Tarefa que poucos conseguiram sem perder a essência da obra na tradução.

James Joyce

Mas tão complexo quanto traduzir Finnegans Wake é lê-lo: uma obra que atrai e repele leitores com igual intensidade, muitos estudiosos atribuem diversos significados à obra sem chegar a uma conclusão definitiva. Entre tantos significados e leituras há quem diga que não há o que entender e que o livro é pura imersão na linguagem, e há quem enxergue a apreensão e o vislumbre do eterno, fruto da contemplação dos ciclos que se sucedem entre si, eras de homens, deuses e heróis. A mesma eternidade que o personagem-título da HQ, O Skreemer, visa alcançar através da perpetuação de si mesmo projetado em uma linhagem, mantendo o ciclo de vida e morte nos trilhos.

"Fluxo de linguagem", "oceano de palavras vivas"... Será essa a sensação de ler Finnegans Wake?


Aposto que os parágrafos aí em cima assustaram vocês, não? "Que diabos tá acontecendo aqui? o título é de um gibi da Vertigo, mas o texto é uma desgracenta duma aula de literatura??? esse animal tá esclerosado? Isso é alguma pegadinha???". 
Nada disso, macacada. É porque pra compreender melhor Skreemer, a HQ de Peter Milligan (roteiro) e Brett Ewins + Steve Dillon (arte), é preciso pelo menos saber do que se trata(m) o(s) tal(is) Finnegans Wake  (sim, a referência é dupla! e uma dentro da outra, a inception das referências! rsrsrsrs) que são repetidamente citados ao longo de toda a história. Milligan mirou alto e tentou entregar uma história que apesar de curtinha, seria o seu épico de gerações. Inspirado em filmes como Era uma vez na América e Caçada na Noite (também vai ser inevitável pro leitor fazer conexão com O Poderoso Chefão, Os Bons Companheiros e Scarface) e no próprio livro Finnegans Wake, Skreemer conta a história do líder criminoso Veto Skreemer, porém narrada por Timothy Finnegan, um capanga menor na organização de Veto. Tim é encarregado de fazer a segurança da mulher de Veto, ou melhor, a prostituta que Veto escolheu para dar à luz a seu herdeiro. A história é ambientada em Nova York, 38 anos após uma guerra que deixou a civilização em pedaços. Veto é um gigante que sente que a era dos gigantes está chegando ao fim. Ele é o dono de um império criminoso conquistado às custas de muita violência e brutalidade, e para combater essa obsolescência irrefreável que se aproxima no horizonte, Skreemer tem um plano monstruoso até mesmo para os seus padrões execráveis, algo tão terrível quanto o holocausto que assolou o mundo. À medida que esses acontecimentos se desenrolam, caminhando rumo à inevitável conclusão trágica, outros personagens nos dão acesso ao passado de Veto por meio de flashbacks, onde vemos como ele formou sua própria gangue com o auxílio de seus amigos, ainda adolescente, galgando degrau por degrau até se tornar um dos maiores "Presidentes", como são nomeados os líderes criminosos nessa distopia grotesca. Esse recurso dos flashbacks escancara tanto a intimidade dos personagens para o leitor que vemos camadas que chegam a dar a impressão de os conhecermos como pessoas reais, tal a profundidade que o desenvolvimento de Milligan alcança na narrativa.






A HQ foi publicada pela DC comics em 1989, e posteriormente incorporada ao selo Vertigo, o que, levando em conta o teor da história, foi muito adequado. Milligan consegue, através da narrativa que vai e volta em flashbacks, capturar esse espírito de ciclos contido em Finnegans Wake com maestria. O dilema de Veto também é um prato cheio pros filósofos amadores, pois o mafioso padece da velha dicotomia determinismo x acaso, chegando ao ponto de "forçar a mão do destino" em alguns momentos, para que tudo saia conforme ele crê que as coisas devem acontecer. Uma das primeiras histórias da Vertigo, que já nasceu produzindo clássicos! Alôu Marvel!






Ué... tradução do Márcio Seixas???

A segunda conexão entre Skreemer e Finnegans Wake é com a música de mesmo nome, uma canção tradicional irlandesa com origem estimada por volta da década de 1850, que relata uma anedota acerca de um pedreiro, Tim Finnegan, que nasceu "amando a malvada (...) e, para aliviar a labuta diária quando podia, tomava a maldita", e que, ao cair de uma escada, fratura o crânio e é dado como morto. Os frequentadores de seu funeral ficam exaltados, uma briga explode no recinto e um pouco de uísque é derramado no rosto do "cadáver" de Finnegan, fazendo com que ele desperte, "voltando à vida" e se unindo às celebrações. O uísque é tanto a causa da ruína quanto da ressureição de Finnegan. Aqui a expressão Finnegans Wake assume duplo sentido: a palavra "wake" tanto pode significar "despertar" quanto "funeral", e Tim Finnegan passa pelas duas situações na letra da canção. Vale lembrar também que a palavra whiskey é derivada da expressão irlandesa uisce beatha, ou "água da vida". E devo acrescentar que essa é a maior verdade que já li na minha vida ;>). A canção tem sido regravada de tempos em tempos por vários grupos, como o Dropkick Murphys, entre outros, e é a canção que o avô do personagem Timothy Finnegan vive cantarolando ao longo de toda a HQ. A canção serviu como base para o livro de James Joyce, com a ressurreição cômica de Finnegan servindo como a metáfora ideal para o ciclo da vida.







Skreemer não é inédito no Brasil: a editora Abril publicou a HQ aqui no começo dos anos 90 em formato americano, em uma mini série em seis edições. Já em 2000 e uns a editora Brainstore perdeu a chance de fazer um belo resgate histórico e cagou tudo: publicou no tal formato paraguaio, em preto e branco, tradução sofrível e uma qualidade tão ruim que se via a arte pixelada nas linhas dos desenhos, se olhasse com um pouco de atenção. A bola caiu no campo da Panini para se fazer justiça e dar o tratamento que Skreemer merece, publicando a obra em edição de luxo, com capa dura, papel couché e até mesmo um pequeno apêndice com a letra de Finnegans Wake, na versão original e também traduzida. Um verdadeiro trabalho de arqueologia da Vertigo, um belo resgate de um pedacinho da história das HQs! A invasão britânica começou AQUI! (também rs).

Se encontrar essa edição de Skreemer em um sebo, FUJA!

Eu ainda poderia falar mais um pouco, como por exemplo, o porquê de Joyce ter optado não colocar apóstrofo em "Finnegans", mas vou parar por aqui! Enfim, digam o que disserem do Finnegans Wake de Joyce: que é um fluxo de genialidade, ou apenas uma tentativa de escrever com muito uísque na cabeça. Whatever. Que sigam os debates inconclusivos até o fim dos tempos. 

Skreemer não deixa nem sombra de dúvida: É brilhante e pronto.




quarta-feira, 13 de setembro de 2017

APENAS UM PEREGRINO, de Garth Ennis + Carlos Ezquerra, ou "Chumbo no diabo da cabeça aos pés!!!"







Por Eduardo Cruz





Garth Ennis tem trabalhos que variam muito em termos de qualidade, oscilando do divertido ao esquecível, do sublime ao "Só-escrevi-essa-HQ-pra-pagar-um-cruzeiro-pra-mim-e-pra-patroa", o que não chega a ser uma tragédia completa. Com uma bibliografia tão grande, é natural que certos trabalhos agradem menos que outros. Afinal, como diz o ditado: "Quem trabalha muito, erra muito. Quem trabalha pouco, erra pouco. E o Jeph Loeb erra o tempo todo". Ok, essa última parte é invenção minha (mas ora vá! só eu acho o Loeb intragável, o roteirista perfeito para outro "talento", Rob Liefeld? uma HQ com essa dupla criativa??? essa seria uma HQ que destruiria o planeta...).


Garth Ennis

Acho que ainda não falamos de Garth Ennis aqui, se não me falha a memória. O irlandês começou, como a maioria dos roteiristas britânicos, na revista 2000AD, escrevendo histórias do Juiz Dredd. Mais uns anos à frente e Ennis se torna um dos mais famosos roteiristas dos quadrinhos, em grande parte por vários de seus trabalhos publicados na DC Comics: alguns arcos de John Constantine - Hellblazer, a série fechada Hitman, algumas edições de The Demon, aquelas histórias muito loucas da Brigada Rifle - esse título também em colaboração com o Ezquerra - (PELAMORDEBAFOMÉ, ALGUÉM RELANCE ISSO EM UM FORMATO DECENTE AQUI!!!), e é claro, a HQ formadora de caráter, sua obra prima: Preacher. Pensa que acaba por aí??? Na Marvel Ennis escreveu a mini série Thor - Vikings (divertida, na pior das hipóteses...) e a série do Justiceiro por muito tempo, salvando o personagem de uma fase patética e agraciando-o com as melhores histórias que jamais nenhum roteirista escreveu para Frank Castle (seria o Justiceiro de Garth Ennis um clássico da Marvel? finalmente? comentem aí rsrsrsrs). Depois disso, Ennis ainda trabalhou na editora Dynamite, com títulos como The Boys, Ronda Vermelha, O Sombra e Campos de Batalha. Ennis também soltou muitos trabalhos pela Avatar Press, como as mini séries 303, Crossed, Stitched e Chronichles of Wormwood.

A indefectível, indispensável, seminal, formadora de caráter Preacher

os Bastardos Inglórios que valem

The Boys, batizada aqui de "Urmininu"

Será que finalmente encontramos um clássico da Marvel???


Com esse currículo tão extenso, não é de se surpreender que alguma coisa passe batida pelo público. Em 2000, a Wizard Entertainment (lembram da Wizard??) fundou seu próprio selo de quadrinhos, o Black Bull, e adivinhem: Ennis deixou sua marca lá também. A que estamos nos referindo? À HQ Apenas um Peregrino, do ano de 2001.






Segundo sinopse divulgada pela editora Mythos:


 “Oito anos se passaram desde a Queimada — quando o sol começou a morrer e ferveu os oceanos até secarem. A Terra mergulhou numa gigantesca devastação, governada por piratas que aterrorizam e chacinam os últimos bolsões de humanidade que restaram. Nessa era pós-apocalíptica, surge o misterioso matador conhecido como “Peregrino”. Criado pela dupla Garth Ennis e Carlos Ezquerra, essa é a série que combina o faroeste e seus anti-heróis com o fim do mundo. A Mythos Editora apresenta pela primeira vez as duas minisséries num só volume, em capa dura, numa luxuosa e imperdível edição.”





Capa da primeira edição brasileira de Apenas um Peregrino, pela editora Devir. Arte de Glenn Fabry.


Em resumo: uma espécie de Mad Max que cita a bíblia enquanto mata saqueadores e monstros mutantes, ou um Waterworld sem água (desculpem, não resisti kkk), uma história pós apocalíptica recheada de ação, tiroteios, violência desmedida, situações bizarras e profanidade, o de sempre para quem lê Garth Ennis há algum tempo. Um bom trabalho do roteirista, em uma época em que ele ainda não escrevia no piloto automático.











Histórias pós apocalípticas não são uma novidade na obra de Ennis, que parece curtir esse tipo de temática, vide Crossed, Justiceiro - O Fim e Rover Red Charlie, a mais incomum dessas três: o apocalipse pela perspectiva de três cãezinhos! 




Para aqueles que não ficam ofendidos com críticas à religião, Apenas um Peregrino vai lembrar bastante outra HQ britânica: Missionário - Lua de Sangue, que já comentamos AQUI. Na HQ de Gordon Rennie, com arte de Frank Quitely, entre outros, as situações, apesar das equipes criativas diferentes, são bem semelhantes em sua execução: o contexto que lembra um bom faroeste, as piadas (e críticas!) em torno de religião enquanto o anti herói protagonista, um forasteiro de passado misterioso - e em Apenas um Peregrino é um passado misterioso e grotesco! - estourando os ímpios à bala para fazer "o trabalho de Deus".

Dèja vu do bom!



Tanto Apenas um Peregrino quanto sua continuação já haviam sido publicadas aqui antes, no começo da década passada, em duas edições de capa cartonada pela editora Devir. Esse encadernado da Mythos Books compila as duas histórias: Apenas um Peregrino (2001) e Apenas um Peregrino: Os Jardins do Éden (2002) em um volume de 240 páginas e formato 26 x 17cm, com aquele precinho salgado da Mythos que a gente conhece. Mas mantendo a calma e com um pouco de paciência sempre dá pra encontrar uma promoção boa nas internetes, pro estrago na carteira não ser tão grande...

Alguma dúvida que isso vai dar MUITO ruim...?

Uma conversão de última hora! Morra de inveja, M. Night Shyamalan!!!
Os extras da edição incluem as capas originais, pin-ups, esboços...

Uma história divertida e ao mesmo tempo profunda, graças ao seu tema delicado - religião sempre dá merda, não é, amiguinhos? -, desenhada pela lenda Carlos Ezquerra - o artista espanhol, co-criador do Juiz Dredd - que já havia trabalhado anteriormente com Ennis em títulos como Hitman, Preacher e  Bloody Mary. Apenas um Peregrino é altamente recomendada para estudantes de teologia e religiosos fundamentalistas em geral. Ou se vocês são daqueles que procuram uma boa história com camadas bacanas praquela reflexão marota, embarque nessa peregrinação à terra devastada o quanto antes, mas muito cuidado pra não serem agarrados pela lula subterrânea! Vocês não iriam gostar nem um pouco do que elas fazem...





"Você e eu, Senhor. Você e eu..."

terça-feira, 29 de agosto de 2017

AS PIETÀ COMIC COVERS, a capa mais reproduzida dos quadrinhos em todos os tempos!!






Por EDUARDO CRUZ


A Pietà (do italiano Piedade) é uma das obras mais famosas de Michelangelo Buonarotti (não, não é a tartaruga ninja), um daqueles magníficos artistas da renascença que pintavam, esculpiam, compunham poemas, e nas horas vagas ainda faziam experimentos astronômicos, científicos, arquitetônicos e filosóficos (hoje em dia, "artista" só canta em programas de televisão e comerciais, e sequer compõem as próprias canções :>P). Ela está localizada atualmente na Ala Leste da Basílica de São Pedro, dentro do estado do Vaticano. A Pietà simboliza a dor de Maria pela morte de seu filho Jesus Cristo (sabe? aquele que os Beatles ofuscaram??), e por extensão a dor e a impotência da humanidade frente à morte e perda dolorosa de um ente querido. 


A escultura é, provavelmente a mais bem acabada do artista, e uma das jóias do período artístico conhecido como a Renascença, por volta de 1492, ano em que foi encomendada. Apesar da cena de sofrimento retratada primar  pelo idealismo em detrimento do realismo - vide as expressões faciais serenas dos retratados, a despeito da intensidade da situação -, uma característica das obras do período, sua mensagem permanece até hoje clara e poderosa, bastando se postar de frente para a obra por alguns momentos para se sentir inundado de consternação e comoção pela cena. A empatia é imediata, dizem aqueles que já tiveram esse privilégio. Sua composição básica é triangular, um dos arranjos favoritos dos artistas do período na montagem de suas obras, e a textura alcançada pelo mármore polido impressiona até os dias atuais. Até mesmo a proporção desigual entre Cristo e sua mãe é um elemento deliberado, que evidencia a benevolência e a acolhida da mãe ao filho morto. Repito, uma imagem poderosa.
 
A Pietà vista de cima


A disposição em forma de triângulo era frequente nas pinturas renascentistas
Agora avancemos alguns séculos no tempo, mais especificamente ao século XX. Não sabemos exatamente em qual publicação isso começou, ou exatamente quando, mas foi por meio de uma expressão artística típica deste século, conhecida como História em Quadrinhos, que alguém decidiu fazer uma releitura da Pietà e aproveitar toda a força que a cena transmite nessas pequenas peças de ficção, essas revistinhas cheias de desenhos coloridos (ou não) e balões com diálogos (ou não rs). Talvez a intenção fosse aumentar a verossimilhança, dar um pouco de credibilidade a essas historinhas tão fantasiosas, ou talvez o artista achasse simplesmente que seria uma capa impactante a se destacar das outras revistinhas nas bancas de jornais. O mito das Pietà Covers foi aumentando de proporção com o passar dos anos, e hoje se perdeu a conta de em quantas capas a obra de Michelangelo foi referenciada, ao ponto da origem quase se perder com o passar das gerações. Mas a gente não iria deixar isso acontecer. Esse post é um modesto resgate histórico, para que nenhum amiguinho passe vergonha nas rodinhas de conversa achando que é tudo referência àquela capa de Crise nas Infinitas Terras ou A Morte da Fênix Negra, dos X-Men. Agora vocês sabem coisa vai bem mais longe, pessoal...
 
Desde os tempos mais primórdios...


... as Pietá Covers tão aí, tão aí, tão aí...

E ao contrário do que pensávamos...


... não se restringem apenas às HQs de super-heróis.



 

Alguns mais maldosos dizem que a Marvel não tem clássicos...

Mas têm uma tonelada de referências à Pietá, que é quase tão bom quanto.

Ou não???

  




 
Agora, preciso ser honesto e admitir que a idéia pra esse post surgiu de comentários a respeito de uma foto postada no Instagram da Zona Negativa. Eu havia postado três capas dentre as que eu tenho em minha coleção de HQs, e conversa vai, conversa vem, um leitor joga o termo Pietà Covers na roda! Na mesma hora, bateu aquela vontade de fazer uma pesquisa a respeito, mostrando as capas mais conhecidas, desenterrando algumas nem tão conhecidas e por fim fazendo um breve post sobre esse fenômeno interessante, releitura após releitura, após releitura... depois de quase um ano procrastinando, aqui estamos nós finalmente rsrsrsrs... Meus agradecimentos pela dica ao Leitor Anônimo, cujo nome foi perdido nas areias do tempo e nos grupos de HQs do Facebook. Um monumento será erigido a vós!


São tantas capas fazendo referências umas às outras...

... que eu confundi. Pronto, essa é a clássica!

A capa da morte da Fênix... desculpe, falha nossa...
... Ô droga, errei de novo, é o inverso!
AGORA SIM!
Se tem alguém que adora morrer...

... só pra ser carregado pelo Bátemã...

... é o Robin.

... mas de vez em quando rola um troca-troca...
Troca...

Troca...
Troca...

Troca...

Volta!

Enfim, eu poderia continuar o resto do dia postando dúzias de Pietà Covers aqui. O original é um imagem forte, não há duvidas, e não à toa é uma das imagens mais reproduzidas das artes, e em especial dentro da cultura pop. Se vocês encontrarem alguma Pietà cover interessante que não entrou no post e seja digna de menção, fiquem à vontade para colocar nos comentários lá embaixo! Ciao!!!