quinta-feira, 16 de novembro de 2017

AS BRIGADAS FANTASMA, de John Scalzi, ou "A guerra continua!!!"







Por EDUARDO CRUZ





"A tecnologia humana era boa, e no quesito arsenal os seres humanos estavam tão bem equipados quanto a grande maioria de seus adversários. Mas a arma que importa no fim das contas é aquela que fica atrás do gatilho."


E A GUERRA CONTINUA!

Depois de um hiato grande demais pra quem amou o Guerra do Velho logo nos primeiros capítulos, a Aleph finalmente publicou o segundo volume da série, As Brigadas Fantasma. O livro retoma a premissa principal da série, onde acompanhamos um conflito travado entre a humanidade e diversas espécies alienígenas pelo controle do maior número possível de planetas com condições propícias para colonização. Como não há muitos planetas desse tipo espalhados pelo universo, cada espécie quer garantir que aquele território conquistado permaneça seu! Então já sabem, né? É GUERRA!



Neste segundo volume da série acompanhamos o soldado das Forças Especiais Jared Dirac, desde o momento de seu nascimento. Clonado a partir das células de um possível traidor, a Federação Galática de Defesa cria Dirac a princípio para tentar descobrir o paradeiro e as intenções do dono do genoma original, na perspectiva de que a personalidade do doador se replique em seu clone, assim emulando o raciocínio do traidor a fim de localizá-lo e capturá-lo. Como a princípio isso não sai como o esperado, Dirac termina por ser incorporado a um pelotão das Forças Especiais liderado por ninguém menos que Jane Sagan, uma das protagonistas do livro anterior. Em As Brigadas Fantasma vemos um lado do conflito que foi abordado apenas perifericamente em Guerra do Velho: A rotina e treinamento dos soldados das Forças Especiais, clones modificados, gerados a partir do material genético dos recrutas idosos que morrem antes de ganharem seus corpos modificados para travarem as batalhas das FCD. Esses corpos, pelo fato de seus doadores originais morrerem antes que a transferência de consciência seja realizada, são verdadeiras tabulas rasas, criaturas sem passado engendradas com apenas um objetivo: proteger os colonizadores humanos universo afora. Lutar e morrer. No decorrer do livro, esse detalhe da trama evoca questões éticas semelhantes às que Mary Shelley aponta em Frankenstein, no que diz respeito à responsabilidade quanto à criação de vida artificial - aliás, a obra de Mary Shelley, bem como seus derivados pela cultura pop são brevemente citados em As Brigadas Fantasma


"Depois de assistir a Star Wars, todo mundo queria um sabre de luz e ficou irritado ao saber que na verdade a tecnologia para produzi-los não existia. Todos concordaram que os Ewoks deveriam morrer."


Scalzi referencia e homenageia suas influências de forma muito pontual desde Guerra do Velho, chegando a mencionar neste segundo livro o Tropas Estelares - o livro E o filme! -, notória influência do autor na criação da série, o que é algo bastante honesto da parte de Scalzi, visto que, fora alguns conceitos científicos que ele desenvolve ao longo da série, nada ali é exatamente original, mas o seu trunfo está em como opta por contar sua história. Apesar de Dirac não ter o carisma de John Perry, o protagonista do livro anterior, ele é interessante a seu modo e carrega a reboque questões filosóficas acerca de livre arbítrio, a natureza da consciência e do "eu".

 "As Forças Coloniais de Defesa descobriram, para seu intenso desgosto, que muitos de seus seres humanos levemente modificados ("levemente" sendo relativo) não ficavam muito felizes ao descobrir que eram criados como uma plantação de buchas de canhão e se recusavam a lutar, apesar dos melhores esforços de doutrinação e propaganda possíveis para persuadi-los. Humanos não modificados ficavam igualmente escandalizados, pois a decisão parecia mais outra medida eugênica por parte do governo humano, e o curículo de governos amantes da eugenia na experiência humana não era exatamente estelar."




Assim como em Guerra do Velho, Scalzi continua a desenvolver sua ciência maluca, e entre tantas raças alienígenas, armas, tecnologioas e biomodificações o destaque da vez fica para os Gameranos (sim, uma homenagem ao Kaiju japonês Gamera!).

À direita Gamera, e à esquerda, um tal de.... Gojira?

Essa geração de soldados das Forças Especiais foi projetada para sobreviver no vácuo espacial sem nenhum tipo de aparato, sendo inclusive a primeira geração de soldados a possuírem seus BrainPals, o computador interno que os soldados das Forças Coloniais de Defesa utilizam, em forma orgânica! O design desses humanos modificados lembrou muito algo que o geólogo e paleontólogo escocês Dougal Dixon já havia concebido em seu livro Man After Man: An Anthropology of the Future. O livro, que é um bestiário especulativo sobre os caminhos evolutivos do ser humano daqui a alguns milhões de anos trazia, entre vários outros exercícios de imaginação O Vacuumorph, um derivado do já distante Homo sapiens biologicamente apto a viver no espaço!

"Se conseguirem encontrar uma maneira de procriarmos naturalmente, teremos uma nova espécie: Homo astrum, que pode viver entre os planetas. Não teremos de lutar com ninguém por propriedade. E isso quer dizer que os seres humanos vão vencer."

Ilustração de Man After Man: An Anthropology of the Future





Como eu disse lá em cima, Scalzi pode não ser o cara mais original da Ficção Científica atual, mas compensa isso com uma narrativa divertida!


Ilustração de Man After Man: An Anthropology of the Future


Como no livro anterior, a escrita de Scalzi continua bastante leve e fluida, um verdadeiro vira páginas! eu li  Guerra do Velho em três dias, mesmo com toda a minha rotina e as leituras paralelas, e com As Brigadas Fantasma não foi muito diferente, apesar de alguns momentos que perdem o fôlego, e são um pé no freio em uma leitura que estava a 100 por hora minutos antes. Nada que faça o leitor abandonar antes de terminar, mas o ritmo mais lento da continuação em relação ao primeiro é evidente. John Scalzi - pelo menos nessa série da Guerra do Velho, não li mais nenhum outro livro do autor - consegue contar uma história com um bom ritmo e ao mesmo tempo manter a profundidade de seus temas: questionamentos como ética no uso de tecnologias avançadas, bem como questionamentos a respeito de bioética e transhumanismo, os elementos que fizeram de Guerra do Velho um livro tão singular e inteligente, permanecem aqui, aprofundando questões como os corpos clonados e/ou radicalmente modificados do primeiro livro, e também iniciando novas discussões, como "Que senso de identidade de alguém clonado pode desenvolver?", quase como se Scalzi estivesse ajudando a preparar a humanidade para problemas que ela ainda não tem. AINDA. Mas ei, foi exatamente isso que Mary Shelley fez em Frankenstein! e olhem pra gente agora, clonando humanos em segredo enquanto o resto da humanidade olha para o outro lado, assistindo Master Chef e Ídolos ovelhas!




"– […] Não vá me dizer que você é feliz de ser consciente. Consciente de que foi criado para um objetivo que não era a própria existência. Consciente das lembranças da vida de outra pessoa. Consciente de que seu objetivo é apenas matar pessoas e coisas que a União Colonial aponta para você. Você é uma arma com um ego. Seria muito melhor sem o ego."

Pra quem ainda não conhece, vale a pena dar uma olhada na nossa resenha de Guerra do Velho também. Quem curte ficção científica, ou mesmo quem apenas procura uma boa história com situações limite e muita ação para passar o tempo, saibam que ainda dá pra ingressar nesse pelotão! a Aleph publicou apenas dois volumes da série no Brasil até o momento (num total de seis), e o primeiro ainda é fácil de encontrar por aí. Então, não sei vocês, mas eu permaneço nessa guerra até o fim! QUEM ESTÁ COMIGO????  


EU NÃO OUVI VOCÊS, VERMES!!!!

 




quinta-feira, 9 de novembro de 2017

ANDROIDES SONHAM COM OVELHAS ELÉTRICAS?, de Philip K Dick, ou "Você Realmente É Quem Pensa Que É?""






Por RICARDO CAVALCANTI


Philip K. Dick é O CARA! Não é a toa que ele é um dos autores “preferidos da casa” aqui na Zona Negativa (como diria o “Reverendo” Fabio Massari, nos bons tempos da MTV). Além disso, é um dos autores de ficção científica com mais adaptações de suas obras para o cinema. Mesmo quem nunca leu nenhum de seus livros ou contos, mesmo sem saber certamente já teve contato com algumas das inúmeras produções cinematográficas que saíram das páginas e da mente criativa do autor. Duvida? O Vingador do Futuro, Minority Report, O Pagamento e O Homem Duplo são apenas alguns desses exemplos. 
 



Como se não bastasse o cinema, agora a TV está começando a descobrir que as histórias de PKD podem também ser adaptadas em formato de série. Já está na segunda temporada a série The Man in the High Castle, baseado no livro O Homem do Castelo Alto, que mostra uma realidade alternativa em que os nazistas venceram a segunda guerra mundial. Além disso, uma nova série acabou de estrear, chamada Philip K. Dick’s Eletric Dreams, em que os episódios são baseados em alguns de seus contos. Pelos primeiros episódios, a série se mostrou bastante promissora. 
 



Apesar de Philip K. Dick ser um dos nossos autores favoritos aqui no Zona Negativa, não entendo o por quê de não termos falado sobre ele ainda. Uma omissão inexplicável e imperdoável que se resolve agora trazendo um dos livros mais conhecidos do autor e que também serve muito bem como porta de entrada para esse mundo que Dick construiu. Seu livro Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas? ficou famoso por ganhar uma excelente adaptação nas mãos do diretor Ridley Scott, batizada de Blade Runner – O Caçador de Andróides. Blade Runner, juntamente com 2001: Uma Odisséia no Espaço, se tornou umas das mais respeitadas obras de ficção científica da história do cinema. Assim como o livro de Arthur C. Clarke e o filme de Stanley Kubrick se fundem e se completam, o mesmo ocorre com o universo estabelecido por Philip K. Dick, que se amalgama com a visão do diretor Ridley Scott.




Em Androides Sonham com Ovelhas Elétricas acompanhamos Rick Deckard, que é um caçador de recompensas que trabalha para a polícia. Seu sonho de consumo é poder comprar um animal de verdade, que lhe renderia status perante a sociedade. Sua esposa passa boa parte do tempo no emulador de emoções (seria uma forma de camuflar seu notório quadro depressivo, ou uma maneira de programar o seu “cérebro” de androide?), além de ficar boa parte do tempo assistindo Buster Gente Fina, que é uma espécie de programa de variedades em que o apresentador parece tudo, menos humano (assim como se vê em qualquer programa de auditório dominical, por exemplo ;>)). 
 



A história se situa depois da Guerra Mundial Terminus, que ninguém mais lembrava quem venceu ou quem perdeu. A Terra ficou coberta por uma poeira tóxica, fazendo com que aos poucos os animais começassem a morrer até se tornarem praticamente extintos. Marte é colonizado e a alta casta da sociedade é incentivada a migrar para colônias interplanetárias, recebendo um androide orgânico (como os modelos T-800 de O Exterminador do Futuro) como forma de incentivo e para lhes auxiliar no que for necessário. Lá, quem faz o trabalho pesado são os imigrantes ilegais, digo, os androides construídos para este fim.




Os androides não são permitidos na Terra, relegados a realizar os trabalhos a que forem designados nas colônias. Com a chegada ao mercado de um novo modelo batizado de Nexus 6, muito mais avançados tecnologicamente, a tarefa de distinguir entre humanos e robôs fica muito mais complicada, por conta de sua impressionante semelhança física com os humanos. Quando começam a tomar consciência de suas reais capacidades e a perceber e entender a realidade em que vivem, alguns fogem para a Terra a fim de viver como humanos, se beneficiando dessas características físicas. Após a fuga de alguns desses andróides, Deckard é designado para caçá-los, e é quando a história de desenrola.




Durante todo o desenrolar da narrativa, o que pulsa em nossas cabeças são questionamentos do tipo: O que diabos, exatamente, é a humanidade? Ela pode ser emulada? ser humano é nascer humano? Gostos, vontades, desejos, sonhos, ambições... Se somos a soma das coisas que vivemos e experimentamos, no que nos transformaríamos se memórias artificiais fossem implantadas em nossas mentes? Não teríamos como saber que não são lembranças verdadeiras! Você saberia afirmar com certeza absoluta que você é um ser humano, e não um androide com memórias implantadas para pensar que é um humano??? Você saberia distinguir o que é real? ou melhor, saberia definir O QUE é realidade? Esses são os questionamentos que costumam permear as histórias de Philip K. Dick e isso é justamente o que torna suas histórias tão fascinantes (e indigestas!).
 


Seria Deckard um androide tentando ser cada vez mais humano? Seria ele um humano que não tem mais certezas de sua própria humanidade? A pergunta do título, que no primeiro momento soa um pouco estranha e sem sentido, faz com que durante a leitura, criem-se mais questionamentos que respostas. Não se pode afirmar categoricamente que Deckard é um androide, nem que ele é humano. O próprio personagem não tem essa convicção. Seria a consequência de novas memórias implantadas? Seriam por conta de uma nova programação? Ou será que ele estava simplesmente esgotado demais, física e mentalmente, para não conseguir distinguir entre o que é real e o imaginário? Estaria ele, como androide, emulando o comportamento humano? Pode-se dizer que sim. Estaria ele, como humano, se aproximando mais do comportamento de um androide? Também pode-se dizer que sim! Independentemente da resposta, o que vemos é um ser com suas convicções abaladas. Seja ele humano ou androide. 
 



Para aqueles que buscam uma história cheia de tiros, explosões, com muita ação e correrias vertiginosas pelo futuro, tendo um protagonista sendo a síntese do conceito de super-herói, esse não é o livro para você. Ou melhor: talvez esse não seja o autor para você. As ações e correrias vertiginosas acontecem dentro da psique dos personagens. Philip K. Dick nos tira da nossa zona de conforto, nos entregando uma história sensacional de um homem em seu labirinto psicológico e sua fuga constante para evitar conseguir descobrir quem é (ou o que é).




Este é o tipo de livro que cresce a cada leitura. Cada vez você volta àquele cenário, pode perceber mais sutilezas e nuances do texto, te fazendo imergir cada vez mais naquele ambiente e, consequentemente, na mente do autor. Questões filosóficas, ideologias religiosas, desejo por uma ascensão social, inconformismo com situação degradante que lhe é imposta, a busca por uma nova vida em um outro lugar são algumas das questões fazem pano de fundo para a história. Talvez a única coisa que possa ser considerada essencialmente errada na obra (não por culpa de PKD), é que Deckard identifica quem é e quem não é humano através da capacidade de mostrar empatia. Hoje está cada vez mais claro que conseguimos identificar o humano através do ódio. Afinal, o ser humano é o único animal capaz de odiar. O ódio que segrega e agride covardemente é o mesmo que une alguns grupos, como vimos em Charlottesville ou na reação a qualquer postagem no Facebook relacionada a questões de direitos humanos, por exemplo. Mas isso não é discussão para o momento.



Para comemorar os 50 anos do lançamento de uma das obras mais icônicas de Philip K Dick, a Editora Aleph resolveu dar um tratamento caprichado nesta nova edição. Com acabamento em capa dura, com uma bela sobrecapa envernizada e recheado de extras e ilustrações de diversos artistas (como Dave Mckean, Elena Gumeniuk, Bianca Pinheiro, Danilo Beyruth e Gustavo Duarte, por exemplo), além de um texto analisando os vários cenários pós-apocalípticos criados por PKD. Certamente vai fazer a alegria dos admiradores do autor e vai servir como um ótimo cartão de visita para os que ainda não o conhecem. 
 



Neste ano se comemoram também os 35 anos do lançamento da adaptação cinematográfica e por conta disso, foi lançada a continuação da história do filme de 1982. Confesso que encarei com muito ceticismo essa ideia. Mas felizmente acabou se mostrando um ponto fora da curva, revelando uma obra como se vê pouco hoje em dia. Além de possuir uma fotografia de encher os olhos, o filme é cheio de sutilezas e chega a tocar temas delicados, como escravidão e trabalho infantil. O que se pode dizer é que o filme é no mínimo corajoso, por escapar da armadilha de tornar a continuação uma franquia seguindo uma fórmula de fácil assimilação pelo grande público. Assim como o filme anterior, Blade Runner 2049 não foi bem nas bilheterias. O que não é nenhum demérito, pois o melhor filme de 2015, Mad Max: Estrada da Fúria, também foi um fiasco nas bilheterias, principalmente se compararmos com o seu custo. Mas como diria Marty McFly: “Acho que vocês ainda não estão preparados para isso, mas seus filhos vão adorar!






Agora corra para contemplar os Rios-C cintilando na escuridão junto ao Portal de Tannhauser, antes que tudo se perca no tempo, como lágrimas na chuva. 


 



segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Cavaleiro das Trevas III: A Raça Superior - Uma análise do artbook das capas, ou "A Resenha Relâmpago de Cavaleiro das Trevas III: A Raça Superior"







Por EDUARDO CRUZ


Uma pergunta pra todos os desafortunados, incautos e vermes de Batman que resolveram acompanhar a mini série O Cavaleiro das Trevas III - A Raça Superior até o seu amargo final, assim como eu: Se o O Cavaleiro das Trevas III - A Raça Superior (a partir desse ponto, chamemos de DKIII para poupar teclado, ok?) é tão bom, por que a maioria das capas da mini série, tanto as principais quanto as variantes retratam cenas de Cavaleiro das Trevas 1???

Capa variante da edição #1, por Mike Allred.

Capa variante da edição #4, por Gabrielle Dell'Otto.
Capa variante da edição #1, por Gary Frank.
Capa variante da edição #1, por Greg Capullo.
Capa variante da edição #5, por Gabrielle Dell'Otto.
Capa variante da edição #1, por Dave Johnson.

Capa variante da edição #1, por Lee Bermejo.
Capa variante da edição #9, por Chip Kidd.
A coisa mais empolgante que eu sentia mês a mês ao (insistir) em ler O Cavaleiro das Trevas III: A Raça Superior era ver as capas, que faziam referência aos melhores momentos da mini série O Cavaleiro das Trevas original, aquela de 1986. Aí já percebi que algo ia mal... se o melhor que tinha naquelas vinte e poucas páginas fazia menção ao que não aconteceu ali, e sim na mini série de trinta e um anos atrás, algo já não começou bem.

Capa variante da edição #1, por Gabrielle Dell'Otto.
Capa variante da edição #4, por Greg Capullo.
Capa variante da edição #3, por Gabrielle Dell'Otto.

Capa variante da edição #1, por Tony Harris.

Capa variante da edição #1, por Ivan Reis.
Capa variante da edição #1, por John Cassaday.
Uma mini série que está em sua segunda sequência ter uma centena de capas variantes já é algo pra deixar com a pulga atrás da orelha, mas essa mesma mini série ter cerca de 85% dessa centena de capas com alusões a cenas chave da mini série do Cavaleiro das Trevas original, lá de 1986? a DC praticamente declarou "Olha gente, nós sabemos que não acertamos de novo, a mini série é meio páia, mas olha só quanta capa maneira retratando as cenas imortais da primeira mini, e pelos melhores artistas do mercado! Não, não ligue pra essa história boba e desnecessária que o zumbi emulador de Frank Miller que temos em nosso poder escreveu! Olha que arte bacana do Lee Bermejo! e do Jim Lee! Darwyn Cooke! Jae Lee! Sean Murphy! Dave Johnson!!! E tem até uma do Quitely! meio apressada e nas coxas, mas ainda assim é Frank Quitely!!"

Capa variante da edição #1, por Matt Wagner.

Capa variante da edição #1, por Dave Johnson.
Capa variante da edição #1, por Dale Keown.
Capa variante da edição #1, por David Finch.



Capa não utilizada, por Patrick Gleason.
Capa variante da edição #4, por Rafael Albuquerque.

Capa variante da edição #6, por Giuseppe Camuncoli.

Capa variante da edição #1, por Jim Lee.
Capa variante da edição #1, por Jill Thompson.
Capa variante da edição #6, por Rafael Grampá.



Capa variante da edição #2, por Cliff Chiang.
Nah... Obrigado. Mas não, obrigado. Na dúvida, vá reler a Cavaleiro das Trevas original. Mas concordamos aqui que DK2 e DKIII são tão necessárias quanto um buraco na cabeça, não? O Cavaleiro das Trevas original dialogava muito bem com a época em que foi produzida. O tom social e político dos anos Reagan/Thatcher, que foram responsáveis por um certo nível de desagregação social e paranóia nuclear refletiram diretamente na história de Miller. Aquele Batman amargurado, torturado por seu passado e pela sensação de que no fim das contas não fez diferença alguma no combate ao crime, o que o força num lampejo insano a abandonar a aposentadoria e combater com ainda mais dureza e violência, um reflexo dos tempos em que foi produzida. Uma leitura que pode resvalar perigosamente no fascismo, uma hipérbole da catarse que a figura do justiceiro encapuzado representa. Tudo que foi desenvolvido por Miller nesse sentido na mini de 1986 acabou ignorado e/ou desvirtuado  pelo próprio Miller nas continuações, tornando O Cavaleiro das Trevas 2 desnecessário, e O Cavaleiro das Trevas III - A Raça Superior, bem, um chiste, na melhor das hipóteses. Ao tentar dialogar com seu contexto político atual (a Era Bush em DK2 e o advento da Era Trump em DKIII), Miller falhou miseravelmente. O raio caiu uma única vez no lugar certo. e foi apenas em 1986.



Capa da segunda edição da mini série original, arte de Frank Miller.

Capa variante da edição #7 de DKIII, por Chris Burnham.

Capa variante da edição #8 de DKIII, por Chris Burnham.
Então, se esse post parecia ser um post de análise do artbook reunindo as capas do DKIII, desculpem, mas vocês caíram na minha pegadinha: essa é uma resenha relâmpago de Cavaleiro das Trevas III: a Raça Superior
A resenha mais sucinta já publicada no blog.
Uma resenha de um fã da Morcega para outro.
Sem rodeios e floreios, DKIII é uma bosta fumegante. Um caça níqueis que eu chamo de "EXECRÁVEL!" (com direito à voz do Marcio Seixas!). E não, não sou hater do Morcego. Muito pelo contrário. Batman é um dos meus personagens favoritos. Mas se é pra produzir histórias como essas, melhor deixar quieto! Achei que a DC tinha aprendido depois do desnecessário Cavaleiro das Trevas 2.


Vou evitar falar desse aqui pra não baixar o nível do post...
Uma porcaria indefensável, sem nenhuma razão de existir além de prover fundos para Frank Miller, e esse é o único bom motivo que eu consigo encontrar para essa HQ ter sido produzida. Nenhum artista e/ou roteirista que deu sua contribuição criativa para que as HQs fossem tão populares hoje em dia, e finalmente alçado ao status de arte legítima, merece o ostracismo terrível a que Siegel, Schuster e Bill Finger foram expostos, isso pra citar os casos mais famosos. Miller pode estar, digamos, fora do eixo hoje em dia, mas alguém duvida que ele já faz parte da história das HQs? Nem eu, nem certamente vocês querem ver nosso cosplayer favorito de Freddy Krueger passando necessidades, certo? Então, se te serve de consolo, pensem que todo o $$$ gasto nas edições de DKIII serviram para que o bom velhinho tenha um pouco mais de condições de se manter dignamente pelo resto de seus dias. Pense nisso como uma tarifa de serviços prestados. O véio merece...

O cadáver reanimado de Frank Miller, mantido como refém na sede da DC Comics...
Já o artbook coletando as capas de DKIII, sim, esse vale muito a pena caso você seja um entusiasta da mini série original - já que o foco do artbook é relembrar os melhores momentos de DK1, pelo visto - ou fã de Batman em geral. Pelo menos é mais barato que colecionar essas nove edições que vão de nada a lugar nenhum! Então, vamos combinar uma coisa? mantenha sua cronologia pessoal ajustada assim: as continuações de O Cavaleiro das Trevas nunca aconteceram. Sua vida vai ser muito mais feliz e próspera. A alternativa é aceitar isso:



Ou isso:




De consolo, só resta lembrar do ano de 1986...



NÃO, PERA...




Como eu disse: Era melhor ter deixado quieto...