segunda-feira, 24 de julho de 2017

"DUNA", de Frank Herbert, ou "Viajando sem se mover"






Por Eduardo Cruz


"Eu não temerei.
O medo é o assassino da mente.
O medo é a morte pequena
que traz a total obliteração.
Eu enfrentarei meu medo.
Permitirei que ele passe sobre mim
e através de mim.
E quando houver passado
voltarei meu olhar interior
para ver sua trilha.
Para onde o medo se foi,
não haverá nada.
Só eu restarei."
Litania do Medo
Ordem das Bene Gesserit


Então suponha que você já leu a trilogia de O Senhor dos Anéis, os sete livros do Harry Potter, os cinco da saga do Guia do Mochileiro das Galáxias, e também seguiu nossas sugestões da Trilogia Robótica e da Saga da Fundação, ambas de Isaac Asimov. Além disso, também já passou pela trilogia Neuromancer / Count Zero / Mona Lisa Overdrive, de William Gibson, e já leu até a saga Crepúsculo (Ei amiguinhos, não estou aqui pra julgar! :>))))), e passado, depois de terminar cada um desses, por aquele período de abstinência em que a gente se sente meio viúvo(a)/órfã(o) depois que termina um tour prolongado por um universo ficcional, e agora está se perguntando com qual grande saga literária vai se comprometer a seguir. A sugestão da vez aqui na Zona Negativa é Duna, de Frank Herbert. 

Frank Herbert


Publicado em 1965, Duna é um clássico da ficção científica que retrata um futuro distante governado por um único imperador, Shaddam IV. Em uma espécie de feudalismo futurista, o imperador possui várias casas de nobres subordinadas a ele, e estas casas governam sistemas planetários. Mas apesar de sua história situada no futuro, vemos em Duna um retrofuturismo diferente, onde todos os avanços tecnológicos são biológicos/genéticos ou analógicos. Isso mesmo, não há computadores ou robôs, uma vez que em um passado distante, a humanidade padeceu à tão famosa revolução das máquinas (que se aproxima a qualquer momento!), e após este incidente, máquinas que suplantem a capacidade de raciocínio humano foram banidas. Algumas disciplinas e ordens que visam o desenvolvimento do potencial humano, como os Mentats, homens treinados para utilizar suas mentes como computadores, e as Bene Gesserit, uma ordem matriarcal que lembra um cruzamento entre cavaleiros Jedi e freiras católicas, especializadas em dons psíquicos, como detectar mentiras, influenciar vontades, dentre outras técnicas, desempenham um papel importante nesta estrutura política sem computadores e inteligências artificiais. 



Neste universo sem máquinas capazes de realizar cálculos complexos, como é possível navegar por entre as estrelas? Graças à especiaria, também conhecida como Melange. Este é o grande trunfo do império, e a base de toda a economia neste universo se deve à extração/refinamento/comércio da especiaria. O Melange concede benefícios fabulosos a quem o consome: amplia a percepção, prolonga a vida, permite a seu usuário visualizar o futuro imediato, possibilita certo grau de telepatia, possibilita viagens espaciais sem o auxílio de computadores de navegação, entre muitos outros benefícios. O único porém é que esta substância - da qual muito pouco se conhece a respeito da real procedência - existe em um único planeta do universo: o desértico Arrakis, também conhecido como Duna. O planeta sofre com a escassez extrema de água, além de ser infestado de gigantescos vermes do deserto que atacam qualquer coisa que produza vibrações no solo. Devido a estas condições o Melange é muito raro e muito caro. Logo, quem controla Arrakis, controla o Melange. E quem controla o Melange, controla o universo!




Descortinado esse cenário, acompanhamos Paul, o jovem herdeiro da casa dos Atreides. Seu pai, O Duque Leto Atreides é ordenado pelo imperador a abandonar seu planeta natal, Caladan, e se mudar para Duna. A partir desse momento a casa Atreides é a responsável pela extração de especiaria no planeta, anteriormente administrado pelos Harkonnen, casa rival dos Atreides. Obviamente a transição de poder dá errado, e após eventos catastróficos, Paul e sua mãe, Lady Jessica - consorte do Duque Leto e que também é uma sacerdotisa Bene Gesserit - são obrigados a fugir para o deserto. Lá, Paul e Lady Jessica são acolhidos pelos Fremen, o povo nativo de Arrakis, arredios e desconfiados, um povo com uma cultura erigida em torno de um conceito: a escassez de água. Os Fremen desenvolveram toda a sua tecnologia com o intuito de extrair água de fontes aparentemente impossíveis, como os dejetos de seus próprios corpos, o orvalho da madrugada e até de seus mortos! Para eles, a água é ainda mais valiosa do que a especiaria. E é entre os Fremen que Paul amadurece, desenvolve seus dons através do uso do Melange e trama sua vingança contra os Harkonnen, e por extensão, contra todo o império...


O trajestilador, a vestimenta que recicla a água do próprio corpo 

Fremen, o povo casca grossa do planeta deserto.

Design de conceito dos personagens, de um dos vários projetos de adaptação que não saíram do papel.

Agora, junte todos esses elementos políticos, sociais, culturais, filosóficos e religiosos dentro desse barril de pólvora que é o planeta Arrakis, adicione todas essas variáveis causadoras de tensão, como as maquinações escusas do imperador, a guerra pelo controle do Melange, as conspirações vindas de todos os lados e já dá pra começar a calcular a proporção da trama. Tão eletrizante quanto Fundação no que tange às relações políticas, mas as comparações terminam por aí. Universos diferentes, mas a mesma natureza humana, fazendo cagadas universo afora.



A editora Aleph, uma das mais proeminentes no nicho de ficção científica por aqui lançou anteriormente três dos seis livros da saga de Herbert, todos em brochura. Entretanto esse ano decidiram republicar novamente a partir do primeiro livro em uma edição ainda mais bonita do que a anterior, que conta ainda com uma pequena introdução escrita por Neil Gaiman, em capa dura. Uma segunda chance pra quem perdeu a tiragem anterior, como o meu caso rs. Até o momento desse post já se encontram disponíveis nas livrarias Duna e Messias de Duna nesta nova padronização.


A imponente nova edição de Duna, da editora Aleph!

:)))


Nos anos 70, o produtor Michel Seydoux adquiriu os direitos de adaptação de Duna e prontamente tratou de colocar o projeto nas mãos do diretor chileno Alejandro Jodorowsky, pai dos midnight movies, conhecido por El Topo, The Holy Mountain, Fando y Lis, Santa Sangre.... Jodo logo pirou forte, como é de seu costume, e torrou boa parte do orçamento com drogas contratando artistas para tranpôr os conceitos grandiosos do livro para o filme, gente do calibre de H. R. Giger, Chris Foss e Moebius, entre outros monstros. 


Pôster do melhor filme que jamais existiu...

Jodorowsky concebeu seu Duna como um filme de 14 horas de duração, que teria trilha sonora composta por Tangerine Dream, Pink Floyd, Magma e outros músicos conceituados. O elenco também era fabuloso: nomes como Orson Welles, Udo Kier, David Carradine, Mick Jagger, Salvador Dali - no papel de Imperador do universo, e que exigiu um cachê de US$100.000,00 por minuto de aparição em tela!!! - e o próprio filho do Jodo, Brontis Jodorowsky no papel de Paul Atreides, foram escalados para o filme, que nunca chegou a sair do papel porque acabou la plata. O filme era, nas palavras do próprio Jodorowsky, uma livre adaptação da história de Herbert, uma vez que ele não havia lido o livro na época, e possivelmente nestes moldes seria tão bem sucedido quanto as adaptações posteriores, com uma proposta assim tão diferente do cinema comercial a que o grande público foi aculturado, ou sejE: existindo ou não, o Duna do Jodorowsky provavelmente também iria afundar. 

 Trailer de Jodorowsky's Dune, excelente documentário 
que relata a empreitada malfadada do diretor em tentar adaptar Duna.

Pelo menos a experiência serviu pra inspirar Jodorowsky a criar uma das maiores histórias em quadrinhos já produzida, ao lado do artista Juan Gimenez: A Saga dos Metabarões (completa aqui), mas isso é assunto pra outro post...


Meu primeiro contato com Duna foi ainda garoto: não sei ao certo quantas vezes assisti àquele filme dirigido por David Lynch, ou melhor, Alan Smithee, pseudônimo usado por diretores em Hollywood que preferem permanecer incógnitos, evitando que sua filmografia seja associada a certos trabalhos. Apesar do orçamento gigantesco e do elenco cheio de nomes respeitabilíssimos como Max Von Sydow, Patrick Stewart, Jurgen Prochnow e até o John Constantine Sting, o filme afundou nas bilheterias e foi massacrado pela crítica.  Não considero esta adaptação tão terrível quanto Lynch e o resto do mundo; na pior das hipóteses o filme serviu para que minha leitura do livro não fosse tão confusa, uma vez que eu já  estava familiarizado com todos aqueles conceitos há anos, gastando a fita VHS da locadora aqui do bairro. Claro que a adaptação deixa a desejar, cheia de momentos confusos e mal estruturada, além de vários efeitos especiais que podem ser considerados vagabundos, dado o orçamento do filme, entre outros defeitos, mas tenho um certo apreço sentimental por essa adaptação mesmo assim hehehe.


Trailer de Duna
 
Filme completo, em inglês e sem legendas.
Não esperem por um Twin Peaks aqui hehehe
Pôster promocional do filme

Em 2000, mais uma adaptação, dessa vez pelo canal Sci-Fi. Essa adaptação foi produzida em forma de mini série em três partes, que engloba os acontecimentos do primeiro livro. Se é boa? sinceramente, nunca terminei de assistir, mas é a mais elogiada das adaptações pelas internetes afora. Vou deixar o link da mini série completa aí embaixo, se vocês tiverem coragem e cinco horas pra gastar.

 Mini série completa e legendada.

Por fim, notícias recentes já apontam o diretor Denis Villeneuve, diretor de A Chegada e o vindouro (e desnecessário?) Blade Runner 2049 como o diretor de uma nova tentativa de adaptação do livro de Herbert. Vamos ver no que vai dar dessa vez...


Arte conceitual de Chris Foss para a adaptação de Jodorowsky, nunca realizada.

Apesar das grandes diferenças entre as tramas, uma coisa que Duna tem em comum com a saga Fundação é a capacidade de penetrar tão profundamente na cultura pop, a ponto de vermos sua influência onde menos se espera, como por exemplo, no terceiro disco do grupo Jamiroquai, que faz uma referência à viagem interestelar utilizando o Melange, na faixa título Travelling Without Moving. 




Ou ainda: As bandas Harkonnen... 



... e Vladimir Harkonnen! 



Eu pediria pra não confundirem as duas aqui, mas eles não facilitaram, né? 
Eu pessoalmente, prefiro a Harkonnen já faz uns anos...


Se eu preciso explicar a referência aqui? Não, né!


Os vermes de areia da cultura pop que você conhece e respeita...

Duna também foi adaptado oficialmente em pelo menos cinco ocasiões para videogame (sem contar as modificações feitas por fãs!), dentre elas destaco Dune - The Battle for Arrakis. Passei horas e horas em meu emulador de Mega Drive tentando manter minha refinaria de Melange longe das mãos gananciosas daqueles malditos Harkonnens!! Nesse link dá pra jogar online, se vocês ficaram  curiosos com o potencial viciante desse jogo de estratégia. Apesar dos gráficos precários (o jogo é de 1992!), a ação e dificuldade de Dune - The Battle for Arrakis cativam o jogador até o final! Isto é, caso vocês consigam terminar hehehe.


Um pequeno gameplay de Dune - The Battle for Arrakis

Também dá pra se aventurar a jogar no universo de Duna em forma de card games e board games, qualquer que seja a sua praia, estando com o inglês em dia e algum $$$ para garimpar no ebay. Nos anos 90 a produtora Last Unicorn Games desenvolveu um RPG baseado no universo de Duna, mas por uma questão legal relacionada a licenciamento, o jogo teve uma única tiragem e nunca mais foi relançado, e hoje alcança preços absurdos no ebay. Mais detalhes sobre essa treta aqui.

O raro (e caro!) RPG de Duna jamais relançado...

Duna é uma rara mescla perfeita entre ficção científica e fantasia, uma obra que flerta de forma primorosa com a filosofia, política, religião e ecologia sem se tornar maçante em momento algum. Uma iguaria única que eu recomendo com força e sem medo! E se ainda assim bater um receio quanto a se vale a pena ou não se perder nas quase 700 páginas do primeiro volume dessa saga incrível, volte até o topo desse texto e recitemos juntos a litania contra o medo. Agora siga em frente e não adie mais sua viagem a Arrakis, mas cuidado onde pisa, ou os vermes da areia vão te engolir! 
Eu volto na resenha da sequência, Messias de Duna. Até lá!




quinta-feira, 6 de julho de 2017

"E porque tanto tempo sem posts???", vocês perguntam. Bom, mais uma vez, a culpa é do LOVECRAFT!!!





Por EDUARDO CRUZ


E aí macacada cultista de Cthulhu??? 
Estamos de volta, depois de um longo e tenebroso inverno (quer dizer, na verdade ainda estamos no meio do inverno, mas me deixem em paz com minhas figuras de linguagem, vá!) sem postar nada durante todo o mês de junho (fora o post de Injection! já leu??). Agora estamos de volta com desculpas, explicações e justificativas. Nossas desculpas e explicações são razões pessoais mesmo. De minha parte, tenho trabalhado muito ultimamente, o que aniquilou o tempo que normalmente eu tenho para escrever aqui, e o Ricardo estudando feito um condenado (se não me engano ele cursa História da pornografia agrária do século XIV, e junho é época de provas). Mas não conseguir tempo para escrever não é o mesmo que não conseguir ler nada aqui na Zona! E isso, pelo menos, eu não deixei de fazer. Fora um ou outro gibi esporádico, desde o post dissecando o primeiro volume de Providence, mergulhei fundo na leitura da produção textual de H. P. Lovecraft (mais uma vez! só preciso de uma desculpa pra (re)ler Lovecraft :)))), e só tenho conseguido agora, em julho, sair aos poucos desse estado catatônico literário, pegando finalmente os outros livros que estão aqui na fila de leitura, para fazer os próximos posts da Zona Negativa, e assim, aos poucos vamos voltando àquela rotina que estávamos acostumados por aqui ;>).  


Quem acompanha o blog há algum tempo já sabe que aqui somos leitores doentes de Lovecraft meeeeeerrrrrrmo, e não vamos descansar enquanto os mitos de Cthulhu não estiverem todos armazenados em nossas mentes, corações e estantes heheheh. Mas não precisa acreditar na gente se não quiser. O que Neil Gaiman declarou a respeito de Lovecraft sintetiza toda a importância e reverência em torno desse grande escritor: 

"Ele definiu os temas e obssessões de horror do século XX, e ao entrarmos no século XXI ele se mantém presente."

As editoras brasileiras têm dado um tratamento cada vez mais digno à obra de Lovecraft por aqui. Da editora Iluminuras, passando pela Clock House, não podemos esquecer daquelas edições belíssimas da Hedra, e mais recentemente o tijolo monstruoso da Martin Claret; enfim, o pai do horror cósmico tem recebido cada vez mais destaque no mercado editorial brasileiro, e o novo tributo à obra de HPL a sair por aqui é o volumão "H. P. Lovecraft - Contos reunidos do Mestre do Horror Cósmico", da editora Ex Machina. O projeto foi bancado via financiamento coletivo no Catarse e é o mais novo objeto de desejo dos aficionados por Lovecraft. O livro simplesmente abarca toda a prosa curta de Lovecraft, ou sejE, todos os seus contos e noveletas, com exceção de obras mais extensas, como as novelas "Nas Montanhas da Loucura", "A sombra Vinda do Tempo", "Um Sussurro nas Trevas", entre outros, excetuando-se também textos em que escreveu em colaboração ou como ghost writer. O livro já mostra a que veio na introdução escrita por S. T. Joshi, o maior especialista e pesquisador de H. P. Lovecraft da atualidade (também autor da biografia), e que também supervisionou a divisão dos contos em blocos temáticos. Em pouco mais de 600 páginas, o livro apresenta 61 histórias(!!!), cada uma precedida de uma pequena sinopse, e divididas em ciclos:

  • Ciclo de Cthulhu, com as histórias relacionadas ao seu panteão de entidades horrendas, os mitos de Cthulhu; 
  • Ciclo dos Sonhos, com os contos relacionados ao viajante do sonhar Randolph Carter, além de outros de seus contos com aquela mescla perfeita entre fantasia e horror; 
  • Miscelânea, que reúne contos diversos em vários momentos diferentes de sua (curtíssima!) carreira literária (Sim, aqui tem "Herbert West: Reanimador"!!!!); 
  • Juvenília, seção que reúne algumas histórias escritas por HPL ainda em sua adolescência. 

Como se isso já não bastasse, essa edição ainda conta com apêndices incríveis, como ensaio biográfico, ensaios críticos, filmografia, iconografia, um bestiário lovecraftiano, tudo com a colaboração dos maiores estudiosos de literatura fantástica e da obra de H. P. Lovecraft do Brasil, como Nathalia Scotuzzi, Guilherme da Silva Braga, Marcello Branco, Silvio Alexandre, entre outros. A organização do volume é de Bruno Costa, o mesmo responsável pelas edições da Hedra.





Com preguiça de digitar isso tudo, acabei tirando fotos do sumário mesmo rs.

Inexplicavelmente, o conto "A Coisa na Soleira da Porta" ficou de fora dessa edição. Uma história excelente e curtinha, como era a proposta do livro. Mas ainda assim é de fato a mais ambiciosa publicação de H. P. Lovecraft já lançada em língua portuguesa, um item de colecionador fantástico, e com extras igualmente impressionantes. Mais do que apenas para fãs de Lovecraft, indispensável para qualquer fã de literatura fantástica e horror. 


"Lovecraft - Fear of the Unknown", excelente documentário sobre a vida e obra do escritor, com participações de Neil Gaiman, Stuart Gordon, John Carpenter e outros. Completo e legendado.

E vocês acham que parou por aí? A Darkside Books, aquela editora com o catálogo deliciosamente dark e as capas incríveis, também já anunciou que vai publicar algo do escritor ainda em 2017, pela linha Medo Clássico - que já publicou uma coletânea de Edgar Allan Poe e "Frankenstein", de Mary Shelley -, mas até o momento ainda não há detalhes sobre como vai ser esta publicação. Aguardamos ansiosos por mais uma coletânea de HPL nas livrarias...



Como eu disse anteriormente sobre "Neuromancer", e o raciocínio se aplica com perfeição também a H. P. Lovecraft: estivemos expostos a vida inteira a produtos da indústria do entretenimento que foram derivados direta e indiretamente da literatura de Lovecraft, então que tal dar uma chance ao material original que inspirou obras diversas como "O Enigma do Outro Mundo", "Re-animator", "Stranger Things", "Hellboy", "Uzumaki", "The Void", entre outras dúzias de filmes, séries, HQs, jogos, mangás, músicas, etc?



E aí? foi ou não uma boa desculpa pra passar um mês sem postar? Eu faria tudo de novo. E farei. Então, quando eu sumir de novo, vocês já sabem que mais uma vez fui tragado pelos Mi-Go para um tour por Kadath, Carcosa, R'lyeh, Dunwich, Salem, Innsmouth.... Quando Cthulhu chama, você tem que atender!


quinta-feira, 1 de junho de 2017

“INJECTION”, de Warren Ellis + Declan Shalvey + Jordie Bellaire, ou “O Black Mirror de Warren Ellis”






Por EDUARDO CRUZ



Era uma vez cinco loucos que envenenaram o século XXI....

É, macacada.... Deus tá vendo vocês nesse hype aí com a terceira temporada de Black Mirror, hein? A internet ficou um pouquinho mais pentelha uns meses atrás por causa de uma série inglesa que explodiu cabeças por aí, e atingiu até pessoas que não costumam consumir esses produtos audiovisuais com temática fortemente sci-fi. De nerds a “civis”, de bazingueiros até os vítimas de todas as modas, Black Mirror virou um fenômeno de audiência, e grande parte disso se deve muito ao alcance do Netflix. A série, que aborda questões como ética, relacionamentos interpessoais afetados pela tecnologia, inteligências artificiais, desumanização, entre outros temas muito em voga no momento atual, está alcançando pessoas que eu não imaginaria ver discutindo esses temas, por exemplo, na fila do banco. E isso é muito bom. Qualquer coisa que gere reflexões fora do convencional e suscite conversas para além da santíssima trindade “futebol + novela de ontem + o clima” que rege a cartilha de papo furado no Brasil; isso precisa urgentemente de um upgrade mesmo. Ponto para Black Mirror por essa. Mas e aí? Acabou por aí pra quem curtiu a série e as questões que ela aborda ou tem mais disso escondido por aí, pra quem curtiu enveredar por essa senda de ficção científica hard? E se eu dissesse que existe uma HQ sendo publicada atualmente com essa temática, que esse título pertence à editora Image (Nova Vertigo para os íntimos ;>)) e ainda por cima com roteiro de Warren Ellis? Guardem bem esse nome: Injection.


Da mesma equipe do fantásticomagníficosensacional Cavaleiro da Lua, da Marvel – O trio Warren Ellis, Declan Shalvey e Jordie Bellaire - Injection conta a história de cinco especialistas, todos geniais, cada um deles um excêntrico, cada um deles um mestre em sua área de atuação. O grupo, criado para conceber (e realizar) o futuro da cultura humana, é bancado por uma espécie de empreendimento conjunto entre o governo britânico e uma nebulosa multinacional conhecida como FPI Cursus. É formada então a Unidade de Contaminação Cultural Cruzada, uma espécie de think tank onde seus membros têm carta branca para desenvolver novos conceitos e patentes.

Cavaleiro da Lua, da mesma equipe criativa.
É Marvel, mas é bom rs.






A unidade, composto pela cientista Maria Killbride, o especialista em estratégia e geopolítica Simeon Winters, a hacker e tecnologista Brigid Roth, o investigador e consultor em segurança Vivek Headland e o folclorista e... mago (???) Robin Morel, coordenada por Killbride, decide, nas palavras dela, “Fazer o futuro chegar mais rápido”. Para isso, cada um contribuiu com os conhecimentos de suas respectivas áreas e acabaram criando algo estranho. Entretanto, nessa tentativa de tornar o século XXI melhor, mais estranho e mais propício a grandes avanços, algo dá muito errado e após um tempo separado, o grupo é obrigado a se reunir para dar cabo da loucura que eles  próprios criaram e puseram à solta no mundo, antes que as conseqüências terríveis afetem a humanidade.






É sério isso, seu Ellis? Uma referência ao quadro...

"Caminhante sobre o mar de névoa", de Caspar David Friedrich???

Mas o que vem a ser a tal “Injeção” da HQ? Já ouvi algumas pessoas falando que apesar de terem lido a HQ, não entenderam ao certo o que vem a ser o trabalho que a equipe de Killbride desenvolveu e que deu terrivelmente errado. Pois bem: a tal Injection é uma inteligência artificial, projetada utilizando tecnologia e magia xamanística, e jogada na Internet. “Injetada” no mundão, por assim dizer, para se desenvolver, acumular conhecimento e atender às expectativas da equipe de Killbride. A entidade provoca o grupo que a criou, gerando caos e desordem inspirados por mitologia e superstição. Ellis mantém uma newsletter, a Orbital Operations, onde ele deixa mensagens aos assinantes que variam do espirituoso ao estranho – vamos combinar, Ellis é um cara estranho. Não acredita em mim? Assista a esse documentário! – e em uma dessas mensagens Ellis explicou que Injection se trata de uma grande história sobre folclore bretão, magia, tecnologia e futurismo que, além disso, ainda evoca arquétipos literários e da cultura pop britânica, como James Bond, Doctor Who, Bernard Quatermass e Sherlock Holmes. Está tudo lá, de um jeito ou de outro. Pode conferir!


E o que esperar de Injection? Bem, lá fora a série está em sua décima quinta edição, e passando por um pequeno hiato desde setembro de 2016. Ellis tem desenvolvido os personagens com a loucura e competência de sempre, mas mantendo alguns mistérios, como pro exemplo quem está por trás e quais as reais intenções do consórcio FPI Cursus, e o que a entidade Injeção vai fazer a seguir, e mais qualquer outra pedra que ele jogue no caminho, pra dificultar ainda mais a vida dos protagonistas rs. Ou sejE, ainda tem muito background a ser explorado, e Ellis é competente a ponto de não sinalizar, nem voluntária, nem involuntariamente qualquer direção que o leitor possa prever para a trama. A série é vaga e críptica desde seu início. Ellis já começa sem se preocupar em ser didático com o leitor, deixando muita coisa aberta a especulações e interpretações, ou por muitas vezes joga uma série de flashbacks impactantes de um único quadrinho, para logo em seguida voltar à linha narrativa principal. Não muito diferente de qualquer boa série de TV da atualidade, que começa uma cena sem maiores explicações ou recordatórios, e pode demorar um tempo até você se dar conta de que está vendo um flashback. A dupla Declan Shalvey/Jordie Bellaire esbanja competência, e muitas vezes identificamos a época em que certa cena se passa apenas pelo olhar ou pela expressão facial dos personagens, mostrando versatilidade também na construção de cenários, composição das páginas, tudo de uma forma um pouco mais limpa e polida do que a dupla exercitou em Cavaleiro da Lua, por exemplo.
 


Vivek Headland é, de longe, o personagem mais interessante até agora, dentro uma galeria de bons personagens.


O sentimento de acompanhar uma trama tão rica de potencial, imprevisível e empolgante, com diálogos tão inteligentes, pra mim, é igual à época em que eu acompanhava Planetary, outra série incrível do autor. Só espero que não demore a concluir tanto quanto Planetary, que levou uma década para entregar 27 edições, atraso gerado por problemas de saúde de Ellis e a montanha de compromissos profissionais do desenhista John Cassaday.


 
Talvez esse tipo de HQ não excite muito a imaginação da turminha que se contenta com o mais do mesmo das HQs mensais, mas pros que sempre estão atrás de uma história inteligente, com bons diálogos, personagens ao mesmo tempo estranhos e carismáticos (como Vivek Headland, que é o foco do segundo encadernado de Injection, em um arco onde vemos os atípicos métodos do investigador para adquirir todo e qualquer conhecimento possível, tornando-o uma espécie de Sherlock Holmes do século XXI), vale o sacrifício para ficar de olho nas baixas do dólar e pegar os dois encadernados importados que já saíram até agora ou comprar as edições digitais no Comixology. Ou, se você anda com o inglês enferrujado, fique de olho quando isso sair por aqui. Injection é uma das melhores séries em circulação na atualidade, e ouso especular que é só questão de tempo até alguma editora começar a publicar isso por aqui. Por isso, guardem bem esse nome: Injection...


quarta-feira, 31 de maio de 2017

"SOBREVIVENTE" de Chuck Palahniuk, ou "O Poder Comercial da Fé"


Por RICARDO CAVALCANTI

Quem é o melhor autor de livro de auto-ajuda que você conhece? Alguns podem dizer que é Augusto Cury, outros apontam Lair Ribeiro, enquanto outros ainda vêem no Paulo Coelho esse perfil. O que todos eles têm em comum, é o fato de mostrar para você que tudo pode ser superado com a sua força de vontade, pois você é uma estrela que nasceu para brilhar; só lhe faltando conseguir enxergar isso. A partir de então, tudo se tornará maravilhoso e belo.

Talvez isso possa parecer bastante tedioso para alguns (eu, por exemplo), causando uma repulsa de forma natural e inconsciente. Talvez você não precise que alguém te diga que você é especial. Não existe um segredo que faz as coisas darem certo para você. Não existem fórmulas mágicas que te façam ser mais do que você realmente é. Ouvir algo como “Vocês não são especiais. Vocês não são um belo ou único floco de neve. Vocês são feitos da mesma matéria orgânica em decomposição como tudo no mundo.” faz um pouco mais de sentido que ouvir que você é especial. Bom, se tudo mundo é especial, isso significa que ninguém é especial.

Nada melhor do que esfregar a realidade na sua cara e te fazer reagir, pensar, te sacudir por dentro, destruindo sua visão bela e romantizada do mundo e de si mesmo. Quanto a isso, não existe ninguém melhor que Chuck Palahniuk para fazer esse papel. O responsável por sacudir os brios de uma geração vazia em Clube da Luta volta com sua narrativa afiada como uma faca, que acaba nos acertando em pontos sensíveis de nossas certezas.



Chuck Palahniuk é um dos autores preferidos do Zona Negativa; por isso que de vez em sempre quando falamos de seus livros. Já viraram post por aqui: Clube da Luta, Clube da Luta 2, Assombro e publicamos o conto Tripas, num dos nossos “Encheção de Lingüiça do Bem”. Em Sobrevivente, lançado em 1999 (mesmo ano da estréia nos cinemas do filme Clube da Luta), Palahniuk mais uma vez aproveita para demonstrar sua peculiar visão sobre a sociedade e a forma com que interagimos com ela. Com um humor ácido corrosivo, o autor vai destilando seu veneno e apontando a sua metralhadora giratória em várias direções. Inclusive para você.

Sentimos saudades daquilo que jogamos no lixo porque temos medo de evoluir. Crescer, mudar, perder peso, nos reinventar. Adaptar-nos” 

Enquanto em Clube da Luta o livro se inicia com o narrador sem nome com uma arma apontada para a boca; e vai te explicar como chegou até aquela situação, em Sobrevivente, o narrador, que nesse caso tem nome, Tender Branson, está em uma situação bastante semelhante. Rumando sem destino pilotando um avião que seqüestrou, pretende voar até acabar o combustível e cair. Enquanto isso, está gravando uma espécie de carta de suicídio para ser ouvida depois que encontrarem no meio dos destroços, a caixa-preta com toda a sua história. Branson era membro da Igreja do Credo, que entre suas doutrinas, dizia que só era possível encontrar a salvação através do trabalho; até chegar o momento em que receberiam um chamado de Deus e todos deveriam cometer suicídio.

Palahniuk está em plena forma, com toda acidez diluída em suas páginas; usando e abusando de seu cinismo mordaz, em uma sequência de pauladas, ganchos, socos, chutes e pancadas em forma de palavras. Nós acabamos nos sentindo como se estivéssemos servindo de sparring para algum boxeador peso pesado. Impossível não ficar tonto com tanta pancada.

“...você percebe que se não está no vídeo, ou melhor, ao vivo, via satélite, diante de todo o mundo, você não existe. Você é aquela árvore caindo na floresta para a qual todos estão pouco se fodendo. Não importa se você fez algo. Se ninguém viu, sua vida se torna um grande zero. Um nada.” 

Pode parecer uma questão existencialista um pouco distante e datada (quem hoje em dia liga muito para estar na TV? Mas podemos adaptá-la mais para a cara dos dias de hoje. Repare na imensa quantidade de gente que coloca toda sua vida nas redes sociais, como se ser aceito, fosse extremamente necessário para a própria sobrevivência. Uma forma moderna e patética de justificar a própria existência. Mesmo algumas sendo remuneradas para isso, mostram nada além de uma vida superficial e tola, baseado em um ideal de harmonia e felicidade que só existem na ficção.



De acordo com a Igreja do Credo, todos os filhos mais velhos eram os únicos que poderiam se casar e viver na aldeia; enquanto os outros filhos, assim que completassem dezessete anos, iriam todos embora. Adam era irmão gêmeo de Branson e um dos “anciões da aldeia, mesmo tendo trinta e poucos anos e tendo nascido cerca de três minutos antes. Seu irmão visitou o mundo fora da aldeia e passava sua peculiar leitura do que esperar fora da comunidade de Igreja do Credo. Acredito que em alguns momentos, era o próprio Palahniuk falando pela boca de Adam.

As pessoas usavam um negócio chamado telefone porque odiavam estar perto umas das outras, e porque morriam de medo de ficar sozinhas.” 

Hotel, ele me disse, era uma casa grande onde muitas pessoas moravam, comiam e dormiam, mas ninguém se conhecia. Ele disse que isso descreveria a maioria das famílias no mundo lá fora.”

"As igrejas no mundo lá fora, meu irmão disse, eram apenas lojas locais que vendiam mentiras feitas nas fábricas distantes das grandes religiões." 

Uma crítica ferrenha e cáustica, carregada com todo o cinismo contestador como só se via em um passado recente (hoje em dia, contestar é praticamente um crime). Antes de o mundo ter sido virado de cabeça para baixo, que fez com que os roqueiros, que sempre foram símbolos de contestação e rebeldia, se transformassem em pessoas tão retrógradas quanto o bisavô de seus pais, e o Papa ser a pessoa de mente mais aberta, propondo mudanças e quebra de paradigmas.


Estamos mais do que nunca, numa era de apatia em que contestar algo te transforma imediatamente num vilão. Onde estão os artistas que não seguem essa cartilha de bom-mocismo? Os que quebravam quarto de hotéis, os que viviam intensamente, pois só assim conseguiriam sobreviver. Antigamente os ídolos morriam jovens como Jim Morrison, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Amy Winehouse, Cazuza. Não que eu aplauda a vida autodestrutiva desses personagens; só acho que eram visceralmente autênticos. Não acredito que alguém possa sempre falar as coisas certas o tempo inteiro e estar sempre com um sorriso no rosto, sem que esteja camuflando sua verdadeira vontade. Tenho medo dessas pessoas e do que elas escondem. Medo do que não é real. Mas deixa eu parar de reclamar como um velho rabugento. 
 



Tender Branson é meio gordinho e meio esquisito. Por conta de alguns eventos envolvendo a Igreja do Credo, acaba sendo transformado em uma espécie de novo messias; um profeta para uma nova geração. Para isso precisa se transformar em algo maior; em algo melhor. Precisa cuidar da sua saúde, precisa cuidar de sua aparência, tudo que é dito é minuciosamente pensado por seus agentes, seguindo uma programação para o sucesso. Passa a ter livros entre os mais vendidos, lotando estádios com pessoas esperando ouvir suas palavras; falando na TV no horário mais concorrido. Enquanto parece uma espécie de Forest Gump que na maior parte do tempo, parece não ter ideia do que realmente está acontecendo ao seu redor, só replicando o que foi “programado” para fazer.

Capa da primeira edição de Sobrevivente.
Editora Nova Alexandria

Um dos alvos, o principal na verdade, são as formas de exploração da fé das pessoas. Indivíduos desesperados e perdidos no mundo, em busca de um salvador que resolverá os seus problemas, ou um messias que trará sentido às suas vidas. Essas pessoas acabam se tornando presas fáceis em um mundo cada vez mais mercantilista. Tudo se torna objeto de consumo. Tudo está à venda. Tudo pode ganhar uma roupagem perfeita para que possa ser consumida com facilidade. Não podemos seguir e admirar alguém com falhas; alguém que não seja perfeito, de uma forma que nunca seremos. No fim das contas, não é nada além de um produto comercial que será explorado à exaustão. É claro, até um produto mais novo e com uma embalagem mais moderna aparecer e tornar o anterior descartável e ultrapassado.


O livro está sendo adaptado para se tornar uma série de TV. A boa notícia é que Jim Uhls, roteirista da adaptação de Clube da Luta para o cinema, está trabalhando no desenvolvimento da primeira temporada. Depois do 11 de setembro, imaginar a adaptação de uma história que já começa com um avião sendo seqüestrado, me parece bastante complicado de ser aprovada. Acredito que esta parte será suprimida. Mas vamos aguardar e esperar pelo pior.

Capa da nova edição.
Ed. Leya

Em Sobrevivente, existem momentos hilários cheios de humor negro, principalmente quando Branson se vê atendendo as ligações de pessoas que... Bom, é melhor não estragar as surpresas. Não espere um novo Clube da Luta (essa obra já saiu, foi em formato de HQ, e temos uma resenha sobre ele. Só posso adiantar que a continuação não chega perto da obra original), mas em Sobrevivente, vemos que, mesmo que em alguns momentos lembre um pouco sua obra mais conhecida, Palahniuk prova que ainda estava com muita lenha para queimar - o que acabou se provando ao longo do tempo. Esta é, certamente, uma obra que não pode faltar na sua lista, se você for fã do autor, ou se tiver interesse em conhecer. Ainda falaremos mais dele aqui no ZN. Enquanto isso, você pode mergulhar na história sem medo, mas esteja preparado para as pancadas que vai levar.